A reforma é muitas vezes vista como uma fronteira clara: trabalha-se até determinada idade e, a partir daí, deixa-se a vida profissional para trás. Mas a ciência sugere que esta transição abrupta pode não ser a melhor solução: nem para as pessoas, nem para as organizações.
Num conjunto de documentos agora divulgado, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) alerta que a forma como se discute o aumento da idade legal de acesso à reforma pode ignorar fatores essenciais para o bem-estar das pessoas e para a sustentabilidade do sistema. Segundo os especialistas, aumentar simplesmente a idade da reforma pode até agravar desigualdades sociais e de saúde se não forem criadas condições que permitam às pessoas continuar a trabalhar com qualidade de vida.
De acordo com a evidência científica reunida pela OPP, as pessoas vivem mais anos e, em muitos casos, também conseguem manter atividade profissional por mais tempo. No entanto, isso depende de fatores como as condições de trabalho, a saúde e o tipo de funções desempenhadas ao longo da carreira. Sem estas condições, prolongar a vida laboral pode tornar-se difícil, ou mesmo impossível, para muitos trabalhadores.
Trabalhar mais tempo pode ser positivo, mas não para todos
Os especialistas sublinham que continuar a trabalhar depois da idade legal de reforma pode trazer benefícios quando resulta de uma decisão voluntária. O sentimento de utilidade, o propósito e a valorização profissional podem contribuir para o bem-estar psicológico e para uma vida mais ativa.
No entanto, essa possibilidade não é igual para todos. Profissões fisicamente exigentes ou com elevados níveis de stress tornam mais difícil prolongar a vida laboral, o que pode aumentar as desigualdades entre trabalhadores com diferentes percursos profissionais.
É por isso que os psicólogos defendem que o debate sobre a reforma deve ir além da idade legal. Para que as pessoas possam trabalhar mais anos de forma saudável, é necessário investir em melhores condições de trabalho, promoção da saúde ao longo da vida e adaptação das funções à medida que os trabalhadores envelhecem.
A importância de uma transição gradual
Um dos pontos mais destacados pelos especialistas é a necessidade de preparar melhor a passagem da vida ativa para a reforma. Em vez de uma mudança brusca, muitas pessoas beneficiariam de modelos mais flexíveis que permitam reduzir gradualmente a atividade profissional.
Entre as soluções apontadas estão a possibilidade de trabalhar menos horas, assumir funções diferentes ou realizar projetos pontuais numa fase final da carreira. Estas formas de transição gradual, conhecidas como “empregos de ponte”, podem ajudar a manter o equilíbrio entre capacidades pessoais e exigências profissionais.
Apesar disso, este tipo de apoio ainda é raro. Segundo os dados apresentados pela OPP, apenas 17% das organizações oferecem atualmente algum tipo de apoio à transição para a reforma.
Um tema pouco discutido nas empresas
Outro dado que chama a atenção no relatório é a falta de diálogo dentro das organizações sobre o envelhecimento da força de trabalho. De acordo com a OPP, cerca de 73% das empresas não consultam os trabalhadores sobre as suas necessidades ou expectativas relacionadas com o prolongamento da vida profissional.
Para os especialistas, esta ausência de planeamento dificulta a criação de soluções que permitam aos trabalhadores manterem-se ativos de forma sustentável.
Entre as recomendações apresentadas estão medidas como incentivos para contratar ou manter trabalhadores mais velhos, programas de formação contínua e adaptações nos postos de trabalho que reduzam o desgaste físico e psicológico.
Preparar a longevidade laboral
A OPP defende ainda que a discussão sobre a reforma não deve começar apenas nos últimos anos da carreira. A promoção da saúde física e mental ao longo de toda a vida profissional, incluindo práticas de saúde ocupacional e prevenção de riscos psicossociais, é considerada essencial para que as pessoas possam trabalhar mais tempo com qualidade de vida.
Atualmente, a idade legal de acesso à reforma em Portugal está fixada nos 66 anos e nove meses em 2026. No entanto, os especialistas sublinham que prolongar a vida laboral só fará sentido se as políticas públicas e as práticas das organizações criarem condições para que essa escolha seja possível, e, sobretudo, voluntária.